Notícias

EP 3 – Apae em série: a história da Escola Apae Santa Felicidade 

Da improvisação à referência em educação especial, como surgiram e se estruturaram as escolas da Apae Curitiba.
1737758914980
Eduarda Zeglin
Jornalista, Analista de Comunicação, Marketing e Eventos
Publicado em

No episódio anterior do Apae em Série, você conheceu o nascimento da Apae Curitiba e o contexto social que impulsionou sua criação. Agora, a história avança para um dos pilares mais importantes da instituição: as escolas, que surgiram em um período em que quase não existiam referências em educação especial ou atendimento às pessoas com deficiência intelectual e múltipla.

Mais do que estruturas físicas, essas escolas nasceram da urgência, da sensibilidade e da coragem de famílias e profissionais que decidiram agir em um momento em que o poder público ainda falhava em garantir direitos básicos às pessoas com deficiência.

O primeiro passo: a Escola Agrícola Henriette Morineau

A primeira escola da Apae Curitiba foi construída onde hoje funciona o Bloco 1 da Escola Apae Santa Felicidade. À época, recebeu o nome de Escola Agrícola Henriette Morineau, em homenagem à artista que doou o terreno onde o prédio foi erguido, um gesto decisivo para o início da trajetória educacional da instituição.

Pouco tempo depois, surgiram outras iniciativas educacionais que, mais tarde, se integrariam à Apae Curitiba, ampliando a rede de atendimento e fortalecendo o projeto institucional.

CITA, Vivenda e os primeiros convênios

As antigas escolas CITA e Vivenda não nasceram inicialmente sob a gestão da Apae. Com o tempo, foram incorporadas à estrutura da instituição e transferidas para Santa Felicidade, passando a integrar oficialmente o trabalho educacional desenvolvido no local.

Nesse processo, a Apae assumiu convênios com a Secretaria de Educação, garantindo a continuidade do atendimento e melhores condições de funcionamento. A Escola Vivenda já nasceu com esse nome, inserida desde o início em uma proposta estruturada de cuidado, educação e desenvolvimento.  

A então diretora Maria Helena relata um episódio emblemático desse período. Ao visitar uma pequena escola no bairro Santa Cândida, instalada em uma casa de madeira precária e mantida por apenas três pessoas, ficou evidente que o espaço não tinha mais condições de seguir funcionando. Diante da situação crítica, a presidente da Apae na época decidiu anexar o convênio à instituição, incorporando oficialmente o atendimento.

Assim, em Santa Felicidade, consolidava-se o funcionamento de três escolas, fortalecendo o papel da Apae como referência em educação especial em Curitiba.

Processo Educacional na década de 80

Professora Célia Jubanski no início da carreira na Apae — Foto: Arquivo pessoal

Entre as professoras que fazem parte dessa história está Célia Jubanski, que ingressou na instituição em 1988. Sua trajetória na Apae foi marcada por desafios, mas, acima de tudo, por dedicação e amor à educação especial.

Mãe de Luiz Carlos, que nasceu com síndrome de Down, Célia acompanhou de perto o desenvolvimento do filho dentro da própria instituição. Desde criança, ele foi atendido por profissionais especializados, iniciando sua trajetória educacional na Escola de Estimulação e Desenvolvimento (CEDAE). Posteriormente, passou a integrar a Escola Apae Santa Felicidade, onde permanece até hoje, aos 42 anos.

“Bom, eu comecei na Apae quando precisei, na verdade, de atendimento para o meu filho, que também é uma pessoa com deficiência. Então comecei levando ele para os atendimentos. A partir daí, surgiu a oportunidade de trabalhar na Apae como atendente”, relembra Célia sobre o início da sua trajetória na instituição.

Com o apoio da Apae, Célia também iniciou sua atuação como professora, passando a lecionar na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Ao longo dos anos, construiu uma relação próxima com os alunos e acompanhou diferentes etapas do desenvolvimento de muitas pessoas atendidas pela instituição.


Embora tenha começado sua trajetória no CEDAE, foi na unidade de Santa Felicidade que passou grande parte da carreira e onde continua atuando até hoje.

Para ela, ver os alunos chegarem à fase adulta é motivo de orgulho e a sensação de que o trabalho ao longo dos anos fez diferença. “É uma sensação de trabalho concluído, porque se eles estão aqui é porque passaram por todas as fases anteriores, desde os pequenininhos, aos adolescentes. Agora eles já estão na fase adulta”, afirma.

Ao longo das décadas, Célia acompanhou, além da evolução dos alunos, as mudanças na forma como a instituição desenvolve as atividades e incentiva a inclusão.

“Muita coisa mudou. Hoje existem várias atividades que antes não tinham. Os alunos continuam se desenvolvendo dentro das possibilidades de cada um, mas agora com muito mais oportunidades de socialização”, destaca.

Processo Educacional na década de 90

Início da trajetória de Cletemistra na instituição, em 1998 — Foto: Arquivo pessoal

Cletemistra Melisinas da Rocha é uma das professoras que contribuíram para a transformação da educação especial dentro da Apae Curitiba. Ela ingressou na instituição em 1998, após já atuar com uma classe especial na região de Campo Mourão. Com o objetivo de aprofundar sua atuação na área, mudou-se para Curitiba para integrar a equipe da Apae.

Seu primeiro contato na instituição foi na Escola de Integração e Desenvolvimento do Adulto (CITA), onde hoje funciona o bloco 3. Foi nesse espaço que iniciou o trabalho com estudantes com deficiência, enfrentando desafios relacionados às práticas pedagógicas da época. Enquanto sua expectativa era atuar com alfabetização, inicialmente as orientações eram voltadas a atividades mais básicas, como jogos de encaixe.

Mesmo diante desse cenário, a professora buscou novas estratégias e passou a introduzir, gradualmente, atividades de alfabetização com os alunos. O processo envolveu desafios e resistências, mas marcou o início de uma mudança importante na forma de pensar o desenvolvimento educacional dos estudantes.

Da CITA para a Escola Agrícola

Um dos momentos marcantes de sua trajetória foi a transição da CITA para a Escola Agrícola. Ao ser transferida, Cletemistra levou consigo toda a turma com a qual já trabalhava, incluindo três estudantes cadeirantes, o que representou um grande desafio na época.

A mudança ficou conhecida entre os colegas de forma bem-humorada. “Eles brincavam comigo dizendo que eu desci com o ‘pacote fechado’, porque eu desci com todos os alunos juntos”, relembra.

Naquele período, os estudantes eram distribuídos entre diferentes unidades da Apae, como a própria CITA, a Escola Vivenda e a Escola Agrícola, e havia pouco contato entre eles. A chegada da turma ao novo espaço também representou um momento de adaptação e descoberta. “A gente não tinha contato com os alunos da Agrícola, não sabíamos como eles eram”, conta.

A horta pedagógica como espaço de aprendizagem

Professora Cletemistra com estudantes na horta pedagógica — Foto: Arquivo pessoal

Já na Escola Agrícola, a trajetória da professora ganhou um novo capítulo com a implementação da horta pedagógica. A oportunidade surgiu quando ela apresentou, entre seus documentos, a formação como técnica agrícola, além do magistério e do técnico em contabilidade.

Na época, a direção buscava alguém para cuidar da horta da instituição e, mesmo sem experiência prática, ela foi convidada a assumir a função. O espaço, que antes era pouco utilizado, passou por uma grande transformação com o envolvimento dos estudantes.

Foram construídos canteiros, implantada uma parreira de uva e iniciados diversos cultivos. A horta passou a produzir alimentos como quiabo, abóbora e alface, que chamavam atenção pelo tamanho e qualidade.

Mais do que um espaço de plantio, a horta se tornou uma extensão da sala de aula. As atividades envolviam desde explicações teóricas como espaçamento entre plantas e técnicas de cultivo, até a prática no dia a dia. Mesmo em dias de chuva, o conteúdo era trabalhado em sala antes de ir para o campo.

A iniciativa ganhou destaque na comunidade e chegou a ser tema de um jornal do bairro. “Colhíamos quiabo, abóbora… era enorme. Os pés de alface eram gigantes. Eu explicava tudo para eles, e eles aprendiam muito, adoravam. A horta ficou tão bonita que chegou a sair no jornalzinho do bairro”, relembra Cletemistra.

Aula na horta pedagógica com colheita de pés de abóbora — Foto: Arquivo pessoal

Ao longo de sua trajetória, marcada por desafios e transformações na educação especial, Cletemistra também atuou como pedagoga e teve a oportunidade de conhecer a instituição em diferentes frentes. Durante cerca de 15 anos, acompanhou de perto mudanças, contribuiu com práticas pedagógicas e participou ativamente da construção desse caminho. Em 2014, passou a integrar a equipe pedagógica da Escola Luan Muller, onde segue até hoje.

Para muitos, a Apae também é um lugar de pertencimento e, para Cletemistra, não é diferente. Após décadas de atuação, ela resume esse sentimento: “Ela é minha segunda casa. Vou fazer trinta e oito anos de Apae… e penso: como é que eu vou parar, se aqui é meu segundo lar?”.

Essa dedicação ajuda a explicar a construção da Apae Curitiba que conhecemos hoje, feita por pessoas que transformam realidades todos os dias. E é justamente a partir dessa nova fase na Escola Luan Muller que sua história continua, tema para um dos próximos capítulos.

Informação também transforma. Acompanhe a Apae Curitiba no Facebook e no Instagram e fique por dentro de conteúdos sobre Deficiência Intelectual, Síndromes e Transtornos.

Escola Apae Santa Felicidade

Localizada na Rua Orlando Peruci, 1472, bairro Butiatuvinha – Santa Felicidade, em Curitiba, a Escola Apae Santa Felicidade atende adolescentes e adultos a partir de 16 anos com deficiência intelectual ou múltipla.

A escola tem o objetivo de promover ações educativas através de estratégias de aprendizagem que estimulem e favoreçam o desenvolvimento cognitivo, a autonomia, além de oferecer oportunidades para poderem conquistar o seu pleno potencial, combatendo todas as formas de exclusão e promovendo a igualdade de oportunidades para todos.

Conheça a escola clicando AQUI.

Notícias Relacionadas