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Crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) frequentemente enfrentam desafios em áreas essenciais do desenvolvimento, como comunicação, interação social e autorregulação emocional. Nesse contexto, o modelo terapêutico DIR/Floortime surge como uma abordagem inovadora, centrada no relacionamento e na individualidade da criança, estimulando seu crescimento emocional, social e cognitivo de forma natural e afetiva.
O DIR/Floortime, cuja sigla DIR representa Desenvolvimento, Interesses Individuais e Relações, parte do princípio de que cada criança é única, com maneiras próprias de perceber e interagir com o mundo. A terapia não foca apenas em habilidades isoladas, mas no desenvolvimento global da criança, respeitando seu ritmo, interesses e estilo de aprendizagem.
A intervenção baseada no modelo DIR/Floortime é especialmente indicada para crianças na faixa etária de 0 a 6 anos, período marcado por intensa plasticidade cerebral e pela construção das bases do desenvolvimento emocional e social. A abordagem é considerada ideal como estratégia de intervenção precoce, sobretudo entre 0 e 3 anos, quando contribui para o estabelecimento das seis capacidades funcionais emocionais do desenvolvimento em bebês e crianças com atrasos no desenvolvimento, TEA ou outras dificuldades.
Na fase pré-escolar, entre três e cinco anos, a técnica é amplamente utilizada para fortalecer a comunicação, a interação social e a regulação emocional, acompanhando as necessidades do desenvolvimento infantil. Embora possa ser adaptado para crianças mais velhas, adolescentes e até adultos, sua eficácia é potencializada quando aplicada nos primeiros anos de vida, especialmente em crianças que ainda estão desenvolvendo as capacidades fundamentais de interação, geralmente adquiridas do nascimento até aproximadamente os quatro anos e meio.
No cotidiano, os pais desempenham um papel central na aplicação do DIR/Floortime. A abordagem pode ser incorporada de forma simples no dia a dia, por meio de momentos intencionais de brincadeira, nos quais o adulto se coloca no nível da criança, observa seus interesses espontâneos e entra em seu “mundo”, sem impor comandos ou atividades prontas. É fundamental seguir a iniciativa da criança, responder às suas tentativas de comunicação, sejam elas gestos, olhares, sons ou palavras e ampliar essas interações gradualmente, estimulando trocas, turnos e resolução conjunta de pequenos desafios. Criar rotinas previsíveis, oferecer escolhas e validar emoções também são estratégias importantes para favorecer a autorregulação e a segurança emocional.
A intervenção DIR/Floortime pode ser conduzida por uma equipe multidisciplinar, composta principalmente por psicólogos, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos, profissionais capacitados para avaliar o perfil individual da criança e orientar a família. Em alguns contextos, psicopedagogos, fisioterapeutas e educadores especializados também podem integrar o trabalho, especialmente quando há demandas motoras, cognitivas ou educacionais associadas. O diferencial dessa abordagem está justamente na parceria entre profissionais e familiares, reconhecendo os pais como agentes ativos no processo terapêutico e no desenvolvimento global da criança.
O diferencial do DIR/Floortime está em sua estrutura baseada nas Capacidades Funcionais e Emocionais do Desenvolvimento (FEDCs), desenvolvidas por Stanley Greenspan e Serena Wieder, e que organizam o processo terapêutico a partir da construção gradual da regulação emocional, do vínculo e da comunicação funcional. Por meio do brincar afetivo, a abordagem amplia progressivamente a complexidade das interações da criança, respeitando seu ritmo individual e promovendo conexões cada vez mais significativas com o mundo e com as pessoas.
Esse percurso se inicia pela autorregulação e interesse pelo mundo, quando a criança aprende a manter-se calma, atenta e aberta às experiências, desenvolvendo atenção compartilhada com o cuidador. Em seguida, avança para o envolvimento e a relação, etapa em que se fortalecem os vínculos afetivos, o reconhecimento do outro e o interesse interpessoal. A terceira fase contempla a comunicação intencional bidirecional, marcada pelas trocas recíprocas de gestos, sons e expressões, fundamentais para o desenvolvimento da comunicação.
À medida que essas bases se consolidam, a criança passa a desenvolver a resolução de problemas sociais, utilizando ações e formas mais complexas de comunicação para expressar desejos e emoções. Posteriormente, surge a criação e elaboração de ideias, quando o uso de palavras, símbolos e da brincadeira simbólica permite a expressão de pensamentos e sentimentos. Por fim, a construção de pontes entre ideias possibilita o raciocínio lógico, a compreensão de regras, conversas mais elaboradas e uma relação mais organizada com a realidade.
Ao valorizar emoções, interesses e iniciativas da criança em cada uma dessas etapas, o DIR/Floortime demonstra que aprender vai além da aquisição de habilidades isoladas: trata-se de construir relações, significados e experiências emocionais profundas, oferecendo caminhos mais naturais, humanos e duradouros para o desenvolvimento de crianças com TEA.
Mais do que uma técnica, o DIR/Floortime representa uma filosofia de cuidado que integra desenvolvimento, individualidade e relacionamento. Ao colocar o afeto e a conexão emocional no centro do processo, ele cria um ambiente onde a criança se sente compreendida, segura e motivada a explorar, aprender e crescer. Para famílias e profissionais, isso significa um caminho de intervenção mais humano, eficaz e alinhado às necessidades únicas de cada criança.
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Texto: Vitor Gabriel
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