Notícias

Além do Espectro: a conexão oculta entre autismo e síndrome de Ehlers-Danlos

A ciência revela que a frouxidão dos tecidos do corpo pode estar por trás de sintomas comuns no autismo, exigindo um novo olhar médico que conecte mente e corpo.
perfil-juliana-paiva-web
Juliana Paiva
Estagiária de jornalismo
Publicado em

Você sabia que muitas pessoas autistas convivem com articulações excessivamente flexíveis e outros problemas nos tecidos do corpo? Pesquisas recentes, como o estudo fundamental da Dra. Emily Casanova (2020), mostram que pessoas dentro do espectro apresentam uma chance significativamente maior de ter essa condição, conhecida como hipermobilidade articular, que gera alterações na produção de colágeno, do que a população em geral.

O que é a Síndrome de Ehlers-Danlos e como ela afeta pessoas com TEA?

Segundo a Dra. Casanova e o médico geneticista Dr. Willian de Souza Santos, a Síndrome de Ehlers-Danlos (SED) e o Transtornos do Espectro da Hipermobilidade são condições hereditárias que afetam o tecido conjuntivo. Imagine esse tecido como um tipo de “cola” ou de “alicerce” que dá estrutura a quase tudo no nosso corpo: pele, articulações, vasos sanguíneos e até órgãos internos.

Na SED, essa “cola” costuma ser mais frágil ou elástica do que deveria. De acordo com o Dr. Willian, existem três sinais clássicos que servem de alerta para identificar as síndromes desse grupo:

Hipermobilidade articular: articulações que se deslocam facilmente (membros, dedos, etc.);

Pele excessivamente macia: uma pele que estica com facilidade e apresenta fragilidade, com tendência à formação de hematomas;

Cicatrização retardada: resultado do mau funcionamento do colágeno no organismo.

Essa fragilidade explica por que a condição não causa apenas dores, mas também afeta o sistema nervoso. “Estudos mostram que pessoas com a síndrome têm um risco sete vezes maior de apresentar autismo em relação à população geral”, destaca o geneticista. Além disso, há uma forte associação com o TDAH, onde a prevalência chega a 16% dos casos,  depressão e riscos de suicídio, reforçando que o cuidado deve ser sistêmico.

Diagnóstico: Clínico vs. Genético

Um ponto crucial para as famílias e profissionais que acompanham o público da Apae é entender que o diagnóstico nem sempre depende de exames laboratoriais de última geração. O Dr. Willian explica que o tipo Hipermóvel é o mais comum, representando mais de 50% dos casos de SED, e é o único que ainda não possui uma causa genética identificada. Portanto, seu diagnóstico é puramente clínico, baseado em critérios estabelecidos desde 2017.

Por outro lado, tipos como o Clássico (com mutações nos genes COL5A1 ou COL5A2) e o Vascular, considerado o mais grave, podem e devem ser confirmados através de testes genéticos. O primeiro passo fundamental é estabelecer e classificar o tipo de Ehlers-Danlos para direcionar o tratamento adequado.

A camuflagem de sintomas

Um dos maiores desafios dessa condição é a sua “invisibilidade”. Como os sintomas são internos e variados, a SED frequentemente é negligenciada. Em pacientes autistas, essa confusão pode ser ainda maior:

Ansiedade e POTS: A Síndrome da Taquicardia Postural Ortostática causa batimentos acelerados e a chamada “névoa mental” ao levantar. Essa última se caracteriza por um conjunto de sintomas cognitivos, como falta de foco, lapsos de memória e raciocínio lento, que prejudicam a clareza mental. Por serem manifestações físicas de bastante intensidade, são frequentemente confundidas com crises de ansiedade. 

Fadiga Crônica: O esforço extra que os músculos fazem para manter as articulações no lugar gera um cansaço exaustivo, frequentemente atribuído apenas ao “burnout autista”.

Dores “de Crescimento”: Dores articulares são comumente descartadas como problemas psicossomáticos, quando podem ser microlesões causadas pela frouxidão de ligamentos.

O perigo do diagnóstico fragmentado

A medicina atual muitas vezes cria lacunas perigosas: enquanto o neurologista foca no comportamento e o reumatologista na dor, o paciente fica sem uma visão integral. A SED impacta diretamente a capacidade de sentir o corpo no espaço. Isso explica por que muitos autistas são vistos como “desastrados” ou possuem dificuldades motoras finas; muitas vezes, isso é uma condição física real que precisa de suporte.

A necessidade de uma avaliação universal

Para lidar com essa realidade, é urgente incentivar uma avaliação universal. No caso do autismo, o médico não deve olhar apenas para o comportamento, mas investigar a saúde física e a integridade do tecido conjuntivo.

Identificar a SED em pacientes neurodivergentes vai muito além de nomear uma dor: significa oferecer ferramentas de manejo, fisioterapia específica e, acima de tudo, validar a experiência do paciente. É o reconhecimento de que o desconforto constante não é “emocional”, mas tem uma causa física real, tratável e que merece atenção especializada.

Informação também transforma. Acompanhe a Apae Curitiba no Facebook e no Instagram e fique por dentro de conteúdos sobre Deficiência Intelectual, Síndromes e Transtornos.

Notícias Relacionadas