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Alimentação e autismo: desafios, impactos e caminhos possíveis

Entenda por que a alimentação exige atenção especial e quais estratégias podem promover mais bem-estar e qualidade de vida.
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Redação Apae
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A alimentação exerce papel central no desenvolvimento infantil, influenciando crescimento, aprendizado, comportamento e saúde emocional. Para crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), esse cuidado se torna ainda mais sensível. Isso porque, além das necessidades nutricionais comuns à infância, o autismo está frequentemente associado a dificuldades específicas na relação com o alimento, e a seletividade alimentar está entre as mais recorrentes.

Na prática clínica, esse é um cenário bastante comum. De acordo com o nutricionista que atua na Apae Curitiba, Guilherme Neves, a seletividade alimentar é muito frequente no TEA, estando presente na maioria dos casos acompanhados em consultório, e não deve ser vista como simples preferência. “Esse comportamento envolve fatores sensoriais, orgânicos e comportamentais e exige atenção especializada.” Ele reforça que as famílias não precisam enfrentar o desafio sozinhas e que o apoio de uma equipe multidisciplinar é fundamental.

Seletividade alimentar: muito além do gosto pessoal

No TEA, a seletividade alimentar não se resume ao sabor. Textura, cor, cheiro, temperatura e até a forma de apresentação podem determinar a aceitação ou a recusa de um alimento.

“As restrições costumam ser individualizadas. Há crianças que aceitam apenas alimentos crocantes; outras preferem preparações líquidas ou pastosas. Algumas toleram somente uma textura ou até uma cor específica. Também existem casos em que a criança evita parcialmente um grupo alimentar, como não consumir feijão, mas aceitar lentilha, ou rejeita determinada textura, como legumes cozidos em pedaços, mas aceita o mesmo alimento em forma de purê”, explica o nutricionista.

Segundo o especialista, essa dinâmica está relacionada à sensibilidade sensorial, à rigidez comportamental, a possíveis alterações gastrointestinais e a outras condições associadas.

Estímulos que passam despercebidos para outras crianças podem gerar desconforto intenso ou aversão. Soma-se a isso a dificuldade com mudanças de rotina. Introduzir um novo alimento significa romper padrões já estabelecidos, o que pode provocar ansiedade e reações mais intensas de recusa.

Questões orgânicas também precisam ser consideradas. Alergias alimentares, intolerâncias e alterações gastrointestinais são mais frequentes no espectro e podem reforçar experiências negativas relacionadas à alimentação.

Em revisão desenvolvida na Universidade de São Paulo, pesquisadores apontaram que até 89% das crianças com TEA apresentam algum grau de seletividade alimentar ou dificuldades associadas a padrões alimentares restritos. O dado reforça que esse comportamento é comum no espectro e não deve ser interpretado como “frescura” ou escolha voluntária da criança.

Impactos na saúde e no desenvolvimento

Quando a seletividade alimentar se prolonga e envolve a exclusão de grupos alimentares inteiros, podem surgir deficiências importantes, especialmente de ferro, cálcio e vitaminas do complexo B.

Guilherme Neves explica que, dependendo dos alimentos consumidos e das quantidades ingeridas, o quadro pode evoluir tanto para ganho de peso e obesidade quanto para baixo peso e desnutrição.

Além das carências nutricionais e das alterações no peso, a alimentação restrita pode impactar o sistema digestivo, favorecendo constipação, diarreia, dor abdominal e disbiose intestinal, desequilíbrio da microbiota responsável por funções essenciais à saúde.

Os reflexos também podem atingir a saúde mental. A deficiência nutricional pode dificultar a regulação emocional, aumentar quadros de ansiedade e prejudicar aprendizado, memória e concentração.

Essas alterações podem comprometer crescimento, imunidade, atenção, humor e qualidade do sono. Em alguns casos, a ingestão limitada interfere no desenvolvimento físico e no engajamento em terapias e atividades escolares, reforçando a importância do acompanhamento profissional e da intervenção precoce.

Avanços possíveis: o que funciona na prática

Apesar dos desafios, a seletividade alimentar pode ser trabalhada. O ponto de partida é compreender que mudanças não são imediatas e precisam respeitar o tempo da criança.

Na orientação às famílias, o nutricionista  recomenda estabelecer e respeitar uma rotina alimentar, com horário e local definidos para as refeições, além de evitar distrações como o uso de telas. A previsibilidade, segundo ele, contribui para maior segurança e organização do comportamento alimentar.

Outra estratégia importante é a exposição gradual. O profissional orienta que o alimento já aceito seja servido da forma habitual e que o novo alimento seja oferecido em um recipiente separado, sem forçar o consumo, apenas deixando claro que está disponível para experimentar ou tocar. Esse processo de exposição e oferta gradual ajuda a reduzir a aversão ao longo do tempo.

O envolvimento da criança também pode favorecer avanços. Sempre que possível, permitir que ela participe da manipulação dos alimentos, guardando compras, lavando ingredientes ou ajudando em etapas simples do preparo, amplia o contato com o alimento, mesmo que ela ainda não o consuma. 

O exemplo familiar exerce papel central. A refeição em família, quando possível, fortalece o modelo positivo. O nutricionista também orienta evitar chantagens ou frases negativas, como ameaças relacionadas à saúde, que tornam o momento mais estressante. Paciência é fundamental, já que o processo de ampliação do repertório alimentar tende a ser lento e gradual. Mais do que “fazer comer”, o objetivo deve ser construir uma relação mais positiva e segura com o alimento, respeitando limites, celebrando pequenos avanços e entendendo que cada conquista conta.

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Texto: Vitor Gabriel

A Apae Curitiba

A Apae Curitiba é uma instituição sem fins lucrativos que, há mais de seis décadas, promove atendimento às pessoas com deficiência intelectual e múltipla nas áreas da saúde, educação e assistência social. Além desses três pilares de atuação, a instituição também contribui para a defesa de direitos, a prevenção, a orientação, a prestação de serviços e o apoio às famílias de mais de 500 estudantes.

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