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Monotropismo ajuda a compreender o foco intenso em pessoas com TEA e TDAH

Teoria explica como a atenção é organizada em pessoas autistas e com TDAH e esclarece a diferença entre monotropismo e hiperfoco.
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Juliana Paiva
Estagiária de jornalismo
Publicado em

Se você já conviveu de perto com alguém com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), provavelmente já presenciou aquele momento em que a pessoa se desliga tanto fazendo algo que o resto do ambiente parece desaparecer. Esse nível de concentração vai muito além de um simples interesse ou de uma teimosia em mudar de assunto.

Na verdade, a ciência e a comunidade neurodivergente perceberam  um conceito que explica bem esse comportamento: o monotropismo. Compreender esse jeito de ser ajuda a transformar a nossa visão sobre inclusão, suporte e respeito às diferenças, permitindo criar ambientes escolares, familiares e sociais muito mais acolhedores.

O que é o Monotropismo?

Estudado originalmente em 2005 pela pesquisadora Dinah Murray e seus colaboradores, o monotropismo é uma teoria que busca explicar o autismo não através de uma lista de “falhas” ou “defeitos”, mas pela forma como a atenção é distribuída no cérebro. Para entender melhor o tema, imagine a mente humana funcionando com uma quantidade limitada de energia para gastar com a atenção.

A maioria das pessoas (chamadas de neurotípicas) consegue dividir essa energia em várias coisas ao mesmo tempo: conseguem ouvir uma música de fundo, responder a uma pergunta rápida, notar a temperatura do quarto e continuar fazendo o que estavam fazendo sem grande esforço.

Por outro lado, a mente monotrópica trabalha de um jeito diferente: ela coloca toda a sua energia em uma única tarefa por vez. É como um holofote: ele ilumina um ponto específico com muita força, mas deixa o resto do cenário no escuro.

O Monotropismo no Transtorno do Espectro Autista (TEA)

Para uma pessoa autista, o monotropismo é uma forma natural de viver e interagir com o mundo. Quando o holofote da atenção está apontado para um assunto de interesse, a facilidade de ver detalhes, a profundidade do conhecimento e o apego àquela atividade tornam-se muito intensos.

Isso ajuda a entender, por exemplo, as famosas dificuldades com mudanças na rotina. Quando alguém está muito concentrado em algo, ser forçado a mudar bruscamente de atividade (como parar um jogo ou interromper uma pesquisa para ir almoçar) não é uma simples pirraça. Na verdade, exige um esforço cerebral desconfortável para “desligar” aquele holofote e mudá-lo de lugar. Da mesma forma, um lugar com barulhos e luzes demais ao mesmo tempo pode causar uma sobrecarga (meltdown), pois a mente tenta processar cada informação com muita intensidade.

E no TDAH, como isso funciona?

Embora no começo o monotropismo tenha sido estudado apenas no autismo, especialistas e pesquisas recentes revelaram que ele também descreve perfeitamente a experiência de quem tem TDAH, mostrando-se ainda mais marcante em pessoas que possuem os dois diagnósticos.

No TDAH, a atenção é frequentemente descrita como instável ou distraída, mas o fato é que esse cérebro funciona em extremos: ou há muita dificuldade em se concentrar em algo que não traz interesse imediato, ou ocorre uma entrega absoluta a um assunto de interesse. O monotropismo no TDAH se manifesta nessa busca urgente por atividades que tragam muita motivação, fazendo com que a pessoa mude de um interesse profundo para outro ao longo do tempo, mas sempre agindo de forma intensa em cada um deles.

Monotropismo vs. Hiperfoco: Qual é a diferença?

É muito comum confundir esses dois termos no dia a dia, mas eles representam coisas diferentes:

O Monotropismo é o jeito fixo como a mente é construída. É uma característica constante que dita como a pessoa processa a realidade o tempo todo, influenciando sua fala, seus movimentos e a forma como ela sente o ambiente.

O Hiperfoco é um momento passageiro. Ele é o dia ou a hora em que o monotropismo atinge o seu ponto mais alto. É aquele momento específico em que a pessoa passa horas envolvida em um projeto e esquece de comer, beber água ou olhar o celular porque está totalmente absorvida.

Valorizar em vez de criticar

Mudar a visão de um “defeito de atenção” para o “monotropismo” é um ato de respeito à neurodiversidade. Quando deixamos de enxergar o foco intenso como um comportamento “errado” ou “teimoso” que precisa ser corrigido a todo custo, e passamos a entendê-lo como uma forma real do cérebro trabalhar, abrimos portas para um acolhimento de verdade.

Seja na escola, no trabalho ou em casa, apoiar uma pessoa autista ou com TDAH não significa forçar ela a prestar atenção em tudo ao mesmo tempo, mas sim oferecer apoio para que a mesma consiga mudar de uma tarefa para outra de forma segura e saudável. Aceitar o monotropismo é reconhecer que existem formas diferentes, profundas e bonitas de experimentar o mundo ao nosso redor, e que a riqueza da nossa sociedade está justamente nessa variedade de mentes.

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