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Entenda o que é o “bilinguismo inesperado” em crianças com autismo

O inglês de desenhos animados se transforma em meio de aprendizado para autistas.
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Redação Apae
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O fenômeno “bilinguismo inesperado” (Unexpected Bilingualism) tem sido cada vez mais estudado pela ciência e chamado a atenção de pesquisadores e famílias. Trata-se de casos em que crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) desenvolvem compreensão e até reprodução em uma segunda língua, sem ensino formal, apenas a partir do contato intenso com conteúdos digitais, como vídeos e desenhos animados em outro idioma.

Estudos recentes estimam que cerca de um quarto das crianças analisadas em pesquisas iniciais apresentaram esse tipo de aprendizado espontâneo. O fenômeno tem sido observado principalmente em contextos onde o inglês está presente nas mídias de forma constante, como YouTube, jogos e aplicativos educativos.

Hiperfoco e imersão digital

Entre as possíveis explicações científicas para o bilinguismo inesperado está o hiperfoco, uma característica comum entre as pessoas com TEA. Esse interesse intenso e prolongado pode levá-las a assistir repetidamente aos mesmos vídeos, criando um ambiente de imersão linguística involuntária, semelhante ao que ocorre com crianças bilíngues naturais.

Além disso, pesquisas em neurociência cognitiva apontam que alguns perfis dentro do espectro autista apresentam habilidades diferenciadas de processamento auditivo e reconhecimento de padrões, o que favorece a assimilação de sons, ritmos e estruturas linguísticas de um novo idioma, mesmo sem instrução direta.

O avanço das plataformas digitais globais também têm papel decisivo. De acordo com estudos sobre desenvolvimento linguístico na era digital (Kuhl, 2021; Neuman & Kaefer, 2022), a exposição precoce a conteúdos multimodais em diferentes línguas amplia a capacidade de perceber e diferenciar sons (fonemas), habilidade essencial para a aquisição da linguagem. Em crianças autistas, que costumam se interessar por estímulos visuais e auditivos repetitivos, esse efeito pode ser ainda mais evidente.

Quando o inglês surge em casa

Na prática, muitos pais se surpreendem ao notar o fenômeno dentro de casa. É o caso de Lucilene, mãe de Erick, estudante de sete anos da Apae Curitiba na Escola Luan Muller, diagnosticado com autismo nível 2 de suporte.

“Como ele gosta muito de números, percebi que, quando começou a aprender sobre isso, falava os números em inglês e bem pouco em português”, conta. Ela lembra que o interesse surgiu por volta dos quatro anos. “Até então, ele era não verbal. Começou a falar assistindo a desenhos que tinham números.”

Lucilene relata que, apesar de se orgulhar do progresso do filho, a comunicação às vezes é um desafio. “Tem horas em que ele quer se expressar, fala frases em inglês, e eu não compreendo.” Mesmo assim, ela diz que se sente feliz ao ver o filho avançando e gostaria que ele pudesse aprender mais sobre o tema com acompanhamento adequado.

Novas perspectivas

Durante muito tempo, acreditou-se que o bilinguismo poderia representar uma dificuldade adicional para crianças autistas, aumentando a sobrecarga cognitiva e atrasando o desenvolvimento da fala. No entanto, pesquisas recentes desafiam essa visão.

Estudos como o de Gonzalez-Barrero & Nadig (2019) mostram que o contato com duas línguas não prejudica o desenvolvimento da comunicação e, em alguns casos, pode ampliá-lo. Já uma pesquisa publicada no Autism Research, realizada por cientistas da Universidade de Thessaly (Grécia) e da Universidade de Cambridge (Reino Unido), concluiu que falar ou ouvir mais de um idioma beneficia funções cognitivas importantes, como a teoria da mente, que é a capacidade de compreender as intenções e emoções de outras pessoas, e as funções executivas, ligadas ao planejamento, organização e controle de pensamentos.

Esses achados sugerem que profissionais de fonoaudiologia e educação devem estar atentos ao bilinguismo inesperado, não apenas como uma curiosidade, mas como um potencial recurso terapêutico e pedagógico.

Um novo olhar sobre linguagem e autismo

O bilinguismo inesperado revela a plasticidade do cérebro infantil e mostra que o desenvolvimento linguístico no TEA não segue trajetórias fixas. O ambiente digital, antes visto apenas como entretenimento, quando bem mediado pode oferecer oportunidades reais de aprendizado e expressão.

Mais do que um fenômeno curioso, se trata de um campo de pesquisa que desafia ideias antigas e amplia as possibilidades de compreensão sobre a relação entre linguagem, autismo e tecnologia.

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Texto: Kamile Soares 

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